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Seminário aprofunda discussão sobre justiça socioambiental na Amazônia

Representantes de movimentos e pastorais sociais e de organizações da sociedade civil participaram, de 28 a 30 de julho, no Centro Diocesano de Ji-Paraná, do seminário “Justiça Socioambiental na Amazônia: a Construção do Bem Viver, no Campo e na Cidade”.

Leia a carta política do seminário

Organizado pelo Instituto Padre Ezequiel Ramin (IPER), Diocese de Ji-Paraná e o Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/RO), o seminário aconteceu em resposta ao compromisso assumido a partir do Seminário Laudato Sí (Louvado Seja), promovido pela Rede Esclesial Pan-Amazônica (REPAM), em abril de 2016, na capital Porto Velho.

José Aparecido de Oliveira, coordenador do IPER, ressaltou que a atividade foi construída à luz da Encíclica do Papa Francisco, proporcionando uma profunda análise do momento histórico pelo qual o País está atravessando, das propostas de reformas políticas e do agravamento da crise econômica e social envolvendo os poderes constituídos, que vêm causando enormes prejuízos à vida humana e ambiental.

“As políticas públicas brasileiras no campo da justiça socioambiental não abrangem as demandas de lutas sociais históricas que criticam e repensam a manutenção da estrutura de poder atual, que está intimamente ligada ao acúmulo de capital e à manutenção da propriedade privada. O que estamos presenciando  é a destruição da população empobrecida, das culturas dos povos tradicionais e do meio ambiente”, analisou a coordenadora da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Rodônia, Maria Petronila Neto. 

A expansão do modelo exploratório na Amazônia Legal 

Ramon Cujuí, membro da coordenação estadual da Frente Brasil Popular, explanou durante o seminário que o modelo econômico de ocupação territorial do estado de Rondônia, somado ao uso indiscriminado dos recursos naturais, consumo abusivo de agrotóxicos, exploração predatória de madeira, pecuária extensiva, concentração fundiária e avanço das monoculturas de soja, arroz e cana-de-açúcar refletem diretamente no crescimento desordenado das cidades, provoca aumento da violência e contribui para a intensificação de pressões e conflitos agrários, envolvendo camponeses, povos indígenas e comunidades tradicionais.

Segundo dados da Comissão Pastoral da Terra, o estado de Rondônia foi, mais uma vez, recordista em número de assassinatos em conflitos no campo. Foram registrados no estado 21 assassinatos, dos 61 que ocorreram em todo o Brasil no ano de 2016.

Ramon Cujuí acrescentou ainda que as expectativas econômicas geradas por grandes empreendimentos, como as usinas hidrelétricas do porte de Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira, a construção de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) no curso de importantes afluentes deste rio, e a pavimentação da BR-319 também contribuem para a intensificação do desmatamento, dos conflitos agrários e do êxodo rural. 

Bem Viver: a ecologia integral 

Como forma de enfrentamento ao modelo capitalista predatório, que avança por todo o estado de Rondônia, foram apresentados, durante o seminário, dois exemplos de vivências que promovem a integração entre a natureza e os seres humanos: as experiências dos povos indígenas da etnia Kassupá, que originalmente viviam na região sul do estado, no município de Chupinguaia. Foram expulsos de suas terras e hoje vivem próximos a Porto Velho; e o grupo Agroecológico Bem Viver, localizado no município de Cacoal, região central de Rondônia.

“Para nós, indígenas, `Bem Viver´ significa viver em harmonia com toda a criação, porque entendemos que a Terra é a nossa mãe, geradora de toda a vida. Assim, nosso respeito se estende igualmente por todos os seres que habitam o planeta. Os não indígenas não compreendem esse modo de viver porque não respeitam sequer a vida humana e submetem a maioria às vontades de uma minoria gananciosa”, declarou José Luiz Kassupá.

Agricultura de resistência

 A agricultora Maria de Fátima, representante do Grupo Bem Viver, relatou que a agricultura agroecológica era praticada pelos seus pais, avós e pelas gerações que os antecederam. “Nós apenas seguimos acreditando que seria nessa relação fraterna com a natureza que teceríamos as novas e as antigas formas de produzir nossos alimentos, sustentando a plenitude da vida. E foram as sementes crioulas que nos garantiram essa continuidade. Ao longo dos anos, selecionamos, guardamos e trocamos as sementes entre nós. As sementes são para o povo camponês o símbolo da nossa força, da nossa luta e resistência”.

Por Renata Garcia/Instituto Padre Ezequiel Ramin

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