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“O acesso e o direito a terra são sagrados”, afirma estudante indígena

261947 287628044679429 678402289 nA questão indígena também é alvo das discussões entre os estudantes que integram a Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil (Feab). Para entender melhor o tema, a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) entrevistou Jairã da Silva Santos, indígena integrante do movimento. Ele é da etnia Tingui Botó, de Alagoas, e representa a APOINME (Articulação dos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo.

Na conversa ele fala sobre a relação milenar dos indígenas com a agroecologia, o avanço na inserção dos índios nas universidades apesar dos problemas no governo e aponta o conflito de terras como o principal problema relacionado aos povos e comunidades tradicionais. Segundo ele, a prática da agroecologia utilizada pelos indígenas é naturalmente segura e sustentável.

 

Qual o contexto indígena dessa região, é muito diversificado?

Como todos os povos indígenas, a diversidade é enorme. A sociedade de uma forma geral é educada para visualizar o indígena como um ser genérico, todo índio tem aquela característica mas na verdade não é. As etnias do nordeste têm características específicas por lá ter sido o local onde começou todo o processo de civilização no país. É a região onde os povos indígenas mais sofreram o impacto da cultura não indígena. Mas a variedade é enorme, não só entre etnias do próprio estado mas também a questão cultural, religiosa, dos cantos e danças, costumes, forma de vida e organização social e política.

Quais são as lutas mais duras em comum desses povos?

A principal luta é em relação ao acesso a terra e as políticas indigenistas em geral. O acesso a terra tem gerado conflito entre alguns indígenas e setores da sociedade. O principal na região nordeste é com o povo xucuru-kariri, que antropologicamente já foi comprovado e feito os laudos técnicos de que a terra pertence aos indígenas. Mas atualmente é dominada por poucas famílias que dominam o estado, só que isso ocorre em diversas regiões do Brasil. O exemplo dos guarani kaiowá, no mato grosso do sul, é o mais triste em relação a esse tema.

Na agricultura familiar um problema grande é a saída do jovem para a cidade, como você vê isso entre os índios e na questão da preservação cultural?

Infelizmente o impacto da civilização nas comunidades é continuado diuturnamente. É impossível que isso não ocorra, mas essa saída das pessoas das aldeias para a cidade para buscarem outra forma de vida buscando valores que não são praticados pela comunidade infelizmente ocorre. Existem algumas medidas, na minha comunidade o índio que não conviver com índia obrigatoriamente tem que morar fora. Ou seja, incentiva as pessoas a conviver com os indígenas e manter os costumes na comunidade. Infelizmente não existem políticas públicas que estimulem o indígena a permanecer na aldeia. O próprio exemplo passa pela educação que é precária e na maioria das comunidades, principalmente no nordeste, o cronograma escolar na aldeia não dá possibilidade às crianças passarem todo o ensino médio na aldeia e isso contribui bastante para que eles saiam. Os problemas sociais também são gerados por esse convívio, como o alcoolismo e o uso de drogas.

Em termos de políticas públicas, quais são as principais reivindicações?

O grande entrave é a demarcação das terras, porque no entendimento de todo indígena o acesso e o direito a terra são sagrados. A gente só perpetua nossos costumes, rituais, práticas e formas de organização tendo o acesso a terra para não só manter os nossos costumes mas também para sobreviver: tirar nosso alimento, caçar, pescar e gerar nossos descendentes. E governo após governo esse tem sido um problema continuado. Tem outras questões, como a reestruturação da Funai, que a distanciou do indígena. Na nossa comunidade a gente tem que se deslocar para a capital e são mais de 200km. Isso acontece com diversas etnias.

Você estudante de agronomia acha que a agroecologia se encaixa aonde na realidade indígena?

De maneira natural, os indígenas que praticam a agricultura praticam empiricamente a agroecologia. Porque têm um agroecossistema que preserva as áreas de floresta, têm a prática de diversificar o policultivo, o uso de insumos naturais. Então naturalmente já se pratica a agroecologia, mas infelizmente o avanço dessas tecnologias agrícolas já está chegando às comunidades. A gente tenta enquanto estudante e formador de opinião na comunidade estar levando esse conhecimento de que a nossa prática é naturalmente segura e sustentável.

Muitos indígenas têm entrado nas universidades, existe muito preconceito?

Às vezes parece que só temos críticas a fazer ao poder público, mas essa questão do acesso a educação superior entre os indígenas tem sido bastante fortalecida. Através de muita luta, é claro. Mas reconhecemos que tem sido fortalecida, como os programas de licenciatura culturais que formam professores para atuar nas escolas indígenas por conta da obrigação da LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) que obriga as escolas a terem professores indígenas. Isso forçou ao governo a formar esses professores indígenas. Nos outros cursos a presença dos indígenas ainda é pequena, mas mesmo assim é crescente. Nós estudantes chegamos a universidade e por conta do pouco contato da sociedade com os indígenas muitos estranham, têm essa dificuldade de se relacionar com as pessoas no início. Mas com o passar do tempo a gente vai se entrosando e tentando explicar para as pessoas que a realidade indígena é diferente daquelas que são contadas nos livros de história e de ensino básico.

Foto: Arquivo pessoal do entrevistado.

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